30 Abril 2006

Maratona - Dia Mundial da Dança 2006

Para a REDE e a Plateia a Maratona da Dança, que decorreu no passado fim de semana no Porto e em Lisboa, serviu como oportunidade para reflectir sobre o que se faz e como se faz. A manifestação, que pela primeira vez incluiu o Porto - por onde passaram cerca de 300 espectadores para um total de 21 performances -, foi acompanhada por um amplo programa de debates dedicados à criação, estatuto do artista e descentralização, num diálogo que se quis aberto, responsável, capaz de levantar questões e discutir o essencial, na teoria e na prática.
Estiveram presentes coreógrafos, bailarinos, programadores e sindicatos (STE e SIARTE) mas, inexplicavelmente estiveram ausentes os responsáveis políticos. Só a Delegada Regional do Norte (no Porto) e o sub-director do Instituto das Artes, Orlando Farinha (em Lisboa), compareceram. O não comparecimento dos partidos políticos ou de um representante do Ministério da Cultura (todos convidados para estes encontros) denuncia, no entender das estruturas organizadoras, um fechamento à comunidade, ao mesmo tempo que potencia o equívoco e a ambiguidade. No comunicado incluído no programa do evento é clara essa dificuldade: “perante a indefinição e desarticulação da política cultural para o sector da criação contemporânea, a criação/extinção de organismos e institutos, a alternância constante de interlocutores, é impossível alcançar condições mais estáveis para o desenvolvimento da actividade”.

No Porto, o debate moderado pela jornalista Inês Nadais tratou dos processos de criação dos coreógrafos que se apresentaram na Maratona da Dança. A oportunidade de confronto entre diversos métodos, permitiu que:
- se salientasse a relevância da experimentação/investigação artística, que carece de reconhecimento como trabalho primordial para a criação contemporânea;
- a tomada de consciência de que a investigação/experimentação científica sobre os processos da criação contemporânea, que reflectem a diversidade da dança nacional - uma característica e não um handicap -, são matéria fundamental para a criação.

Como se escreveu no comunicado já referido “esta dança plural, heterogénea e eclética, que existe numa variedade de escalas, de meios de difusão e distribuição, que valoriza o processo criativo, que, em muitos casos, existe enquanto um fazer contínuo que não se esgota num único objecto”. Foi disso exemplo o trabalho efectuado pelo GIEPAC (Grupo Informal de Encontro, Pesquisa e Análise Coreográfica), coordenado por Vera Mantero e com a colaboração de outros coreógrafos e pensadores. A suspensão recente do projecto serviu de repto para a organização de umas jornadas de reflexão sobre os processos criativos e a pertinência da criação contemporânea, a organizar em Outubro, pela REDE e pela Plateia.
Quanto às apresentações, o cruzamento geracional permitiu confrontar propostas de nomes que já se inscreveram na história recente da dança, como o caso de Vera Mantero, Joana Providência ou Isabel Barros, com outros nomes que procuram nesta prática novas formas para interpretar o gesto coreográfico, como João Costa, Victor Hugo Pontes ou Maria João Garcia.
Em Lisboa o programa, ao qual se associou o Teatro Camões, dividiu-se em dois painéis, moderados por Maria José Oliveira dedicados, respectivamente ao estatuto do profissional do espectáculo e à descentralização.
Quanto ao debate “O estatuto do profissional do espectáculo”, ao contributo de membros da REDE (Fórum Dança e CEM) e da PLATEIA a par da Comissão de Trabalhadores da CNB e dos sindicatos STE e SIARTE, juntou-se a opinião e esclarecimentos legais do Dr. Luís Gonçalves da Silva, coordenador do estudo “Identificação das Principais Questões do sector das Artes do Espectáculo (situação jurídico-laboral, acidentes de trabalho, doenças profissionais e formação profissional) encomendado pelo XVI Governo Constitucional (este documento entregue à tutela em Março 2005 continua confidencial). Dos pontos fortes desse debate destacam-se:

- Que um estatuto terá de abranger todos os profissionais envolvidos nos processos de criação e produção das artes do espectáculo, justificando assim uma acção do governo, e justificada esta opção pela similitude dos processos de produção;
- Que se deve proceder à elaboração de proposta para Estatuto Sócio-Profissional a recensear no âmbito de cada uma das associações/sindicatos do sector formando seguidamente uma comissão colegial de trabalho (constituída por um representante de cada uma das estruturas) com mandato/procuração para negociação com a tutela, por tempo limitado;
- Que a contínua realização de relatórios e propostas de alteração de lei não deve prosseguir sem que os criadores e estruturas disso tenham conhecimento.

Importa ainda apontar algumas questões suscitadas pela discussão:

- Quanto custará ao Estado a ilegalidade corrente no sector, nomeadamente em termos de segurança social, por ausência de uma legislação específica?
- Que imagem pública está o país a criar quando utiliza a dança e as artes cénicas em geral, como manifestação cultural mas não lhe reconhece direitos estatutários nem regula a certificação dos profissionais destas áreas?


No caso do debate “A descentralização cultural e a dança”, contou-se com a presença do sub-director do Instituto das Artes, Orlando Farinha, bem como de representantes de estruturas descentralizadas: CENTA (Vila Velha de Ródão), Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo) e Teatro Municipal da Guarda. É de salientar ainda a presença na plateia de alguns programadores (Gil Mendo, Maria de Assis, Francisco Motta Veiga), bem como de Paulo Carretas, responsável, no Instituto das Artes, pelo Programa Território Artes, apresentado como a “2ª geração” do programa “Difusão” iniciado em 1999 e interrompido em 2002. A discussão dividiu-se entre difusão das obras e multiplicação de sedes de criação/produção e sua distribuição no território nacional. Importa destacar que:

- reconheceu-se a importância de generalizar a educação artística prevista no programa de governo bem como a necessidade de desenvolver um trabalho de proximidade junto das populações. Nomeadamente articulando as dinâmicas dos agentes culturais no terreno, em vez de as substituir ou sobrepor.
- reconheceu-se a importância de estruturas como as Delegações Regionais de Cultura que articulem/coordenem as dinâmicas a nível municipal, distrital e regional, sendo essencial que um aumento de competências corresponda a um reforço dos meios técnicos e humanos;
- chamou-se a atenção para a necessidade (do estado?) promover debates sobre as políticas culturais no sentido dos autarcas adquirirem referências que lhes permitam problematizar a gestão dos equipamentos que tutelam;
- questionou-se o funcionamento actual da rede de cine-teatros, muitos sem normas de funcionamento e recursos humanos qualificados, em contraste com o bom exemplo da rede de bibliotecas públicas. Estes Teatros, com métodos de programação e produção acautelados, foram considerados como pólos dinamizadores e despoletadores de criação local e de pólos de programação de menor dimensão dentro do raio de influência de proximidade. Assim, considerou-se prudente, principalmente no actual quadro de austeridade financeira, investir numa rede funcional efectiva dos teatros de capitais de distrito.
- Foi considerada grave e prova da falta de ordenamento do território cultural nacional, a falta de investimento na dinamização cultural da Área Metropolitana do Porto e da sua cidade-centro em particular. Foi considerado que, à imagem do que se faz com Lisboa, a administração central deveria subtrair a dinamização cultural do Porto – onde existem recursos humanos qualificados e equipamentos culturais diversificados em número e qualidade no domínio das artes cénicas – à arbitrariedade do poder local. Só assim se poderá reduzir a distância que qualquer cidadão tem de percorrer para aceder a uma oferta cultural diversificada em termos de arte contemporânea, que é essencialmente urbana.

Os encontros entre os profissionais reuniram cerca de uma centena de participantes, dando oportunidade a que fossem questionadas não só determinadas opções políticas, mas também as formas dos agentes culturais contribuírem para a alteração do estado das coisas. A razão fundamental destes encontros justificou-se assim no modo como criadores e outros agentes culturais (programadores, directores de estruturas, etc.) se viram confrontados com práticas nem sempre auxiliadoras de uma evolução. A responsabilização política dos agentes culturais, que levou à criação da REDE e da Plateia, torna-se mais do que essencial quando o discurso político se ausenta do diálogo.


Tiago Bartolomeu Costa
Observador da Maratona – Dia Mundial da Dança 2006

Etiquetas:

Na ordem do dia (Mundial da Dança)

A diversidade, projecção e complexidade da Dança Contemporânea produzida em Portugal continua a ser um fenómeno que merece atenção e cuja evolução tem resultado de um esforço contínuo e concertado entre criadores, estruturas, associações e profissionais das mais diversas áreas.
Embora as definições de fronteiras entre a Dança Contemporânea, outras formas de Dança e outras disciplinas artísticas estejam permanentemente em diálogo e actualização, há um número considerável de artistas que desenvolvem o seu trabalho neste território, numa multiplicidade de abordagens, de metodologias de trabalho, de relações com o meio, com a comunidade onde se inserem, de relações com a história e com a prática coreográfica.
Esta democratização da actividade criativa cruza gerações, áreas geográficas e de formação, imaginários, objectivos. Cruza formas de organização, de fabricação, de estruturação da produção.
Esta Dança plural, heterogénea e eclética, que existe numa variedade de escalas, de meios de difusão e distribuição, que valoriza o processo criativo, que, em muitos casos, existe enquanto um fazer contínuo que não se esgota num único objecto, continua a lutar pelo reconhecimento, pelo respeito da sua singularidade. Continua a tentar erradicar a precariedade das suas condições de trabalho e a prejudicial descontinuidade provocada pela falta de uma política cultural consequente e dinamizadora.
O fortalecimento do tecido criativo tem sido possível através da sua capacidade de conexão, de ligação e de inter-ajuda, e da permeabilidade das estruturas, que funcionam muitas vezes como plataformas de criação e difusão.
Não obstante alguns esforços positivos por parte do poder político, continuam a existir fortes problemas estruturais ligados ao funcionamento dos organismos do Estado que provocam dificuldades na articulação e cooperação com as estruturas ligadas à criação artística. A indefinição de princípios e objectivos, por parte do poder central, a curto, médio e longo prazo, tem sido um dos principais obstáculos à continuidade e ao desenvolvimento do diálogo.
Perante a indefinição e desarticulação da política cultural para o sector da criação contemporânea, a criação/extinção de organismos e institutos, a alternância constante de interlocutores, é impossível alcançar condições mais estáveis para o desenvolvimento da nossa actividade.


Sobre a política cultural ou a falta dela

O desenvolvimento da arte contemporânea, deve partir de uma visão estratégica e deve ser considerado um encargo/investimento natural do Estado. Este investimento não deve ser exclusivamente do Ministério da Cultura, e deve subtrair a criação e a difusão, a nível nacional e internacional, à lógica de mercado a que não pertence.
Continuamos a exigir a implementação e aplicação de medidas de fundo que possam efectivamente impulsionar o crescimento e melhorar as nossas condições de trabalho:

Não existe uma estratégia integrada de financiamento à produção e difusão dos agentes privados, das estruturas de iniciativa municipal e das estatais;
Não existe uma política clara sobre descentralização;
Não existe qualquer programa consistente de internacionalização;
Não existem programas de formação e sensibilização de públicos;
Não existe um enquadramento legal adequado às profissões das artes cénicas.

Continuamos a lutar para reduzir a distância entre os organismos responsáveis pela cultura e a realidade sócio-profissional da nossa actividade.
A existência de associações como a REDE e a PLATEIA, é prova da disponibilidade crítica e reflexo da necessidade de uma articulação conjunta e permanente entre profissionais, comunidade e poder político.


Um esforço conjunto

A presente Maratona de Dança Contemporânea concretiza um esforço comunitário, existe como uma forma de chamar a atenção, de alcançar a visibilidade muitas vezes ausente no quotidiano dos profissionais do sector. Ao longo de seis horas, vários artistas residentes em Portugal irão apresentar excertos do seu trabalho, ou intervenções especialmente concebidas para o evento. Pretende-se um momento de festa, de encontro, de reflexão. Como proposta de descentralização, a presente maratona realiza-se no Porto, de forma a promover a criação fora da capital e em resposta à dinamização cultural que se tem verificado, de forma nem sempre contínua, na região. O programa contempla uma mostra paralela de vídeos e uma conversa com os intervenientes, continuando, no dia 30, no Teatro Camões, em Lisboa, com a realização de debates centrados em alguns dos temas que mais preocupam a nossa classe profissional.

Dia Mundial da Dança 2006

PLATEIA associação de profissionais das artes cénicas

REDE associação de estruturas para a dança contemporânea

Etiquetas: